Experiência da família de Maria Andrelice (2011)

Del mostra laranjeira em seu quintal

 Experiência agroecológica da família de Del gera renda e autonomia alimentar

 

Maria Andrelice dos Santos, agricultora conhecida como Del, mora com seu esposo, Evangelista dos Santos, e seus três filhos, Adevandro, Sara e Vandélio, no Assentamento Dandara dos Palmares, localizado a 21 Km da sede de Camamu, Bahia. A experiência da família se ampliou em 1999, quando eles foram assentados num lote de 4 hectares e começaram a desenvolver o trabalho com a agroecologia. Com o apoio de algumas entidades iniciaram as experimentações na propriedade.

Del conta que, no início as pessoas pensavam que eles estavam loucos por plantarem alimentos como milho, feijão, mangalô e aipim sem queimar o terreno, apenas roçando. O manejo sempre foi feito com a capina seletiva, observando e selecionado o que cortar. Para o controle da formiga cortadeira, a agricultora usou as plantas “rouxinho” e “comigoninguémpode”, fazendo, quando necessário, escavação para retirar a rainha do formigueiro. Para combater outras pragas e fungos, Del usa calda de pimenta, manipueira, alho, arruda e outras, principalmente, nas hortaliças e na laranjeira que são mais sensíveis. Na capina seletiva, Del também deixa plantas cheirosas e mato para atraírem os insetos.

A poda é feita com atenção, respeitando a diversidade de culturas e a recuperação das plantas, que depois irão se decompor no solo e servir de adubo. “Quando se queima o terreno, matamos as sementes que estão no solo, os microorganismos. Podem ter sementes de plantas em extinção ou outras trazidas por pássaros e insetos que, com as queimadas, iremos destruir. O manejo que fazemos mantém uma diversidade equilibrada.”, explica Del.

Criação de abelhas e de galinhas interage com sistema produtivo

 

Com apoio do SASOP, a agricultora começou a plantar espécies florestais, plantas medicinais, frutas diversas, como abacaxi, laranja, cupuaçu, açaí, limão, além de verduras, leguminosas, hortaliças. “Fomos ampliando com mudas de outros lugares e diversificando a produção”, conta. Incrementaram o sistema produtivo ainda com a criação de galinhas, aproveitando a carne e os ovos, criação de abelhas, que fornecem o mel, além de possuir duas cabras que fornecem o leite. Com o tempo, as pessoas da comunidade começaram a ver os resultados e a acreditar no manejo agroecológico.

Del conta que em 1998 o índice de desnutrição, gripe e verminose, sobretudo, entre as crianças era muito grande. Como trabalhava na Pastoral, participou de capacitações, onde aprendeu e ensinou a usar as plantas para produção de remédios caseiros e da multimistura. As principais plantas que utiliza para fazer os remédios caseiros são a babosa, erva cidreira, alumã, sabugueiro, entre outros. As plantas, segundo Del, servem para utilizar nos primeiros socorros, em machucados, dores, gripe, garganta e verminose.

Hoje várias famílias agricultoras diversificam o seu lote, com as sementes que Del começou a distribuir. “No dia a dia e no contato com as entidades, como o SASOP, e com a nossa prática e troca de experiências fomos melhorando o sistema”, conta Del. Além do seu quintal produtivo e da roça da família, a agricultora participa do mutirão da roça coletiva das mulheres, criada em 1999 por ela e outras companheiras.

 

Del colhendo aipim para vender na Feira Agroecológica de Camamu.

 

Renda, autonomia e sustentabilidade

Com todo esse sistema de produção agroecológica, Del e sua família colhem muitos alimentos e demonstra a importância das pequenas rendas, inclusive a não monetária, para a sustentabilidade da propriedade e da segurança alimentar da família. “Quando falamos de sustentabilidade, não consideramos apenas o que vendemos, mas o que estamos deixando de comprar garantindo ainda uma alimentação de qualidade”, completa.

Del e Evangelista são praticamente independentes do mercado, tirando da própria produção os alimentos que a família precisa. Tudo de forma saudável, com adubo orgânico, sem queimadas, sem agrotóxicos. A produção dá para o consumo da família, doar para os vizinhos e ainda vender para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), da CONAB, na comunidade e na Feira Agroecológica de Camamu. Del é uma das poucas agricultoras que também beneficia os alimentos, pois além de vendê-los in natura, faz bolos, doces, pamonhas, cocadas, farinha de pupunha, beiju, sucos, geladinho, o que garante a conservação dos alimentos por mais tempo e diversifica a venda.

A família de Del, além de empreendedora, é planejada. Faz o monitoramento da produtividade e das despesas e planejam anualmente as atividades para serem desenvolvidas por cada membro da família. Como projeto futuro, deseja diversificar mais algumas partes do sistema produtivo, fortalecer a criação de pequenos animais, como galinhas, peixes e cabras, e criar uma pequena unidade de beneficiamento na cozinha, com forno, máquina para triturar, entre outros equipamentos, e, com isso, ter uma segurança alimentar e uma geração de renda bem mais estruturada na propriedade.

A experiência da família de Del é hoje referência nos intercâmbios entre agricultores e organizações que atuam na área da Agroecologia. Tornou-se liderança no que diz respeito aos direitos das mulheres e seu empoderamento. Del já participou de atividades e encontros em todo o País, por meio da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e outras redes. Em fevereiro de 2011, à convite da Actionaid, apresentou sua experiência na África, num encontro internacional de mulheres e segurança alimentar. Atualmente, participa das discussões do Território Baixo Sul nas questões de gênero e integra o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Camamu.

Família e produtos beneficiados prontos para serem levados à feira.

 

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