Associação de Pescadores e Pescadoras de Remanso é exemplo de luta pela comercialização (2012)

A Associação de Pescadores e Pescadoras de Remanso A-129 (APPR) é o exemplo da luta de um grupo de pescadoras que acessam o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A história da APPR começou quando, em 2008, o coordenador da CONAB, Silvio Porto, anunciou que havia necessidade de se criar uma associação para dar continuidade ao Projeto Sardinha Caseira. Foi assim que um grupo de 11 mulheres deu o pontapé inicial à criação da associação. Com o registro em mãos e o apoio do SASOP, elaboraram o projeto e enviaram à CONAB para que mais mulheres pudessem acessar os programas.

Para Maria Lúcia Freitas Nascimento, sócia-fundadora da entidade, a coragem e a ousadia motivaram as mulheres a seguirem em frente, pois sempre acreditaram em sua própria capacidade e união. Ela lembra que, no início, o grupo contou com o apoio do Conselho Pastoral da Pesca (CPP) e da Rede de Mulheres de Remanso, além de pessoas como o pescador Edivaldo Rodrigues e do funcionário público Francisco Braga, o Chiquinho, que ajudaram a criar a associação.

Eliete Cunha Damião, secretária da APPR, complementa dizendo que a construção do estatuto teve a participação de todo grupo e que sempre tiveram o apoio dos maridos e companheiros, os quais também fazem parte da associação. Eliete afirma ainda que a relação de respeito e confiança é a base do grupo. Irany da Silva Santos, conhecida por Danduca, presidenta da associação, fala que as conquistas foram acontecendo aos poucos, como a carteira profissional do Ministério da Pesca, o Terminal Pesqueiro, que se tornou local do beneficiamento e, isso se concretizou devido à parceria estabelecida com o Movimento de Pescadores da Bahia (MOPEBA), que fez a articulação junto ao governo do Estado. Na época, em 2009, o governo liberou o Terminal e mais 20 mil reais para a reforma.

Como não era o suficiente, cada sócia fez um empréstimo de 50 reais para complementar. Ao final, a reforma estava pronta e o grupo começou a produzir e ampliar a sua infra-estrutura. Outra conquista recente, desta vez junto ao SASOP, foi um projeto da Consul, chamado Consulado da Mulher, que doou três freezeres, três geladeiras e dois fogões. Para Lucília Freitas Santos, vice-presidenta, a doação foi um presente enviado por Deus, pois trabalhavam com freezer emprestado. Agora, têm onde armazenar a produção de filés e linguiças. Nas geladeiras colocarão as verduras e os produtos que precisam de conservação e ainda terão água gelada para beber.

O Projeto Sardinha Caseira atende, por meio do PAA, 26 famílias somando um valor de 112 mil reais. O grupo trabalha com tucunaré e pescadinha. No início de 2011, a APPR participou, pela primeira vez, do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) pela Chamada Pública do município de Pilão Arcado, com filé de peixe e lingüiça, com apoio da Cooperativa Agropecuária do Pólo de Remanso (COAPRE). A nutricionista do município, Márcia Ribeiro Ferreira, revela que os produtos fizeram o maior sucesso com os alunos, embora no início houvesse algumas resistências.

A partir de julho de 2011 a associação vem participando das chamadas no município de Remanso e já entregaram 3 mil e 200 quilos de filé e 3 mil e 200 quilos de lingüiça. O filé sendo dividido com o grupo da Colônia Z-41.  A associação também tem atendido as escolas do Estado com tortinhas de peixe através do PNAE. Em torno de três meses entregaram 9 mil tortas.

Nas falas das mulheres, a valorização e o reconhecimento que sentem pelo trabalho que desenvolvem se destaca. “Antes, a maioria apenas tecia linha, fazia seus afazeres domésticos e, para melhorar a renda, trabalhava em casas de família e tinha que agüentar humilhações.”, conta Francinete Silva Feitosa, a Netinha, como é conhecida. Carmem Lúcia Moreira é outro exemplo. “Antes achava que mulher era para ficar varrendo e limpando e não tinha direito algum”, afirma. Hoje a pescadora tem sua autonomia, pois é com o projeto que garante o seu sustento e da família.

Eva Ribeiro Santos conta que depois que chegou ao beneficiamento tem mais amizades e coragem de falar. Inácia de Oliveira lamenta pelas pessoas que tentaram desanimá-la, dizendo para não acreditar no projeto da APPR. Ela veio do Ceará com sua família e desde que chegou em Remanso trabalha com pesca. Hoje se sente independente com o trabalho que realiza junto ao grupo. “Amo os peixinhos, pois são eles têm melhorado minha renda e me trouxe uma nova vida”, conta. Já Alcineide da Silva é paraibana e chegou a Remanso em 1994, mas logo em seguida foi com sua família para Passagem, vila de pescadores em Pilão Arcado. O projeto fez renascer as suas raízes, pois estava envolvida com outras atividades.

Cássia Santos Silva, conhecida por Cassinha, é filha de Irisdalva Silva, ex-sócia, falecida no ano passado. Depois que perdeu a sua mãe, Cassinha teve a oportunidade de se colocar em seu lugar e entender o que ela falava. “A Associação tem sido uma bênção em minha vida”, argumenta. Mariluce Santos Rocha se sentia discriminada por onde passava. O que mais lhe emocionou quando chegou ao grupo foi ter sido bem recebida e acolhida. Entre tantas histórias, a de Lucília não é diferente. Conta que a sua ligação com a pesca vem desde o ventre de sua mãe. A vida era viajar pelo rio com sua família. Mãe de 4 filhos, diz que na APPR tem aprendido a convivência coletiva e experimentado o exercício da partilha, e que o exemplo de seus pais a tornaram a pessoa que é hoje.

Outro passo que orgulha a APPR é que Remanso foi contemplado entre todo território do São Francisco, com o curso de Mecânica de Motores Marítimos que foi realizado no período de 26 de setembro a 08 de outubro, no qual participaram 16 pescadores de todo Território, ocorreu no Terminal Pesqueiro com a organização da APPR. “A importância dessa capacitação é qualificar os pescadores e estimular a sua autonomia na hora da manutenção em seus barcos, além da possibilidade de ampliar a renda”, ressalta Lucília.

Existe um projeto do governo federal, em parceria com a APPR, de construir 100 casas para beneficiar famílias pescadoras de Remanso. Atualmente, o sonho do grupo é ter uma sede própria e conseguir um capital de giro para aumentar a produção, já que comercializam para a CONAB, PNAE e feiras de economia solidária em várias regiões do Estado. O grupo atende ainda diariamente encomendas para festas, estabelecimentos comerciais e consumo familiar com tortas, patês, lingüiças e filés.

“Um dos desafios hoje é trabalhar com um grupo grande, pois ao criar a APPR, o número de associados cresce a cada dia, principalmente de mulheres. Atualmente estamos com 120 sócios e sócias, mas acreditamos que é na busca da superação coletivamente das dificuldades que vamos fortalecer a categoria”, conclui a vice-presidente Lucília Freitas Santos.

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One response to this post.

  1. Posted by ana ilda ferreira nogueira on 20/08/2014 at 10:59

    gostaria que se possível , receber uma copia do estatuto, porque pretendo criar uma associação das pescadoras, faço parte da ANP e já ouvi alguns relatos da Danduca o que me deixou muito animada a ampliar os nossos sonhos ,digo os nossos porque não estou sozinha nessa luta, mais já temos um grupo de Mulheres prontas pra lutar.

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