AMOMA: uma história de persistência (2012)

Tudo começou no ano de 2004, quando Zidália, uma professora aposentada vinda do Rio de Janeiro, chegou em Remanso-BA e comprou alguns terrenos na Comunidade Marco, com o objetivo de fundar uma escola. Como o lugar já possuía duas, surgiu a idéia de trabalhar com o beneficiamento de uma fruta nativa da região, o umbu. A comunidade, que já tinha um histórico de luta por meio da Associação dos Moradores, iniciou de forma coletiva a busca pelos equipamentos. Saíram pelo comércio da cidade pedindo panelas, baldes, fogão. Foi feito também pedágio na pista com uma corda para parar os carros e pedir doação. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) cedeu uma pequena sala e o grupo começou a trabalhar.

Com a união das associações de Salinas Grande, Major, Marco, Xique-Xique, Assentamento Canaã e Salina do Brejo, do STR e SASOP, conseguiram uma suqueira. Eram dez mulheres produzindo polpa, doce e compota de umbu. O grupo não parou por aí. Em 2005, conseguiu um projeto financiado pela Fundação Banco do Brasil e, com o dinheiro, construíram a unidade de beneficiamento na comunidade  Marco, num terreno doado por Zidália.

A atual presidente é Veraldina Batista da Silva, conhecida por Vera, sempre esteve à frente do trabalho com as frutas e conta que desde o princípio a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) é parceira na compra da produção para a alimentação escolar. Nesses anos, ela aprendeu muito com as reuniões, cursos e com a própria convivência com o grupo. Diz ainda que um dos maiores desafios têm sido administrar a unidade, atividade antes feita por Zidália, que foi morar em outra cidade, mas reconhece que é um aprendizado diário.

O passo a passo da produção

Com o passar do tempo, o grupo ampliou o número de frutas a serem beneficiadas e, hoje, utilizam também a goiaba, o maracujá, o jenipapo, entre outros. O trabalho tem inicio do lado de fora, onde as frutas são selecionadas. Sergina Marques da Silva conta que as frutas ruins são excluídas, ficando somente as de qualidade. Passam por duas lavagens em caixas d’ água diferentes. Depois, são transferidas para uma terceira caixa, já dentro da sala de produção.

As frutas utilizadas para fazer compota são colocadas no vidro junto com a calda de açúcar e depois são levadas ao banho-maria. As utilizadas para a produção da polpa são cozidas, separando a fruta da água que vai ser usada na produção da geléia. Como só existem dois tachos na unidade, quando um fica livre é o momento de começar a produzir a geléia. Mônica Menezes da Silva, 29 anos, explica que a fruta, depois de despolpada, vai uma parte para o tacho do doce e outra para o da geléia.

O segredo da produção da geléia de umbu é que, além de ingredientes como a polpa, açúcar e água, também é colocada o concentrado do limão, que possui uma substância chamada pequitina e serve para conservar o produto por mais tempo. Outra técnica aprendida é a de armazenamento do suco. Depois da fruta cozinhar, por uma hora e meia, ela é separada do suco no equipamento chamado suqueira e,  a partir daí, é engarrafado e posto de cabeça para baixo, para a que a pressão do líquido quente não estoure a tampa. A fase final é a etapa de rotulação, feita por elas mesmas. Alguns dos rótulos são produzidos em gráfica e a maioria na própria unidade. Antes de iniciar o processo de produção é necessário tomar banho, usar uniforme, colocar touca, máscara, botas, luvas e não portar nenhum tipo de objeto, como bijuterias, celulares, entre outros.

Geração de Renda

Até 2010, quando os grupos de Salinas Grande e Xique-Xique produziam semanalmente, trabalhavam em torno de 50 pessoas na unidade de beneficiamento, sendo 95 % de mulheres. Agora, outros grupos estão produzindo em suas comunidades e o grupo do Marco atua com 11 pessoas. Cada produtora e produtor ganha entre 350 reais a 1 salário mínimo.  No espaço, convivem duas gerações, mãe e filha, como Dona Maria das Dores Menezes da Silva, 54 anos, mãe de Mônica. Para Mônica, essa foi a oportunidade do primeiro emprego. “A timidez sempre dificultou minha vida e nesse trabalho me sinto acolhida. É o futuro da família”, reforça. Mônica faz parte da diretoria, responsável pelo setor financeiro-administrativo. Ela diz que a renda média da unidade é de pouco mais de 11 mil reais. Outra iniciativa para a geração de renda é o fundo de reserva, uma alternativa coletiva onde as mulheres contribuem com 5% de seu lucro para as despesas emergenciais.

Aprendizado

Dona Dasdores Menezes conta que, através de conversas no sindicato, conheceu Dona Janete do Assentamento Canaã, que passou a técnica da geléia de goiaba. Outro aprendizado foi o trabalho com a caldeira e o manuseio dos tachos, técnica ensinada durante o curso de caldeireiro realizado pela Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COPERCUC), realizado em Uauá, onde visitaram mini-fábricas de beneficiamento de frutas e aprimoraram a produção dos doces.

Exemplo de mobilização social, a comunidade Marco junto à Associação, sempre lutou por melhorias, como a instalação de postos de saúde, eletricidade e água. “O grupo aguarda a vinda de mais um projeto para a construção de refeitório, vestiário e novos equipamentos para acelerar a produção, além de manter a esperança de continuar acessando o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e de se preparar para participar da próxima Chamada Pública do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), revela a sócia e produtora Edneide Sousa Santos, 37 anos.

Obdúlia Neves da Silva, 43 anos, fala dos espaços da comercialização nas feiras, “acho muito importante porque a gente não só vende como divulga os nossos produtos” e Mônica complementa, “quando a gente faz degustação incentiva a compra dos produtos”. “Durante o ano de 2011 produzimos pouco, mas ampliamos nossos conhecimentos com a formação que tivemos junto ao Centro de Assessoria a Microempreendimentos (CAM), em parceria com o SASOP, que tem nos ajudado na parte de gestão, planejamento estratégico, plano de negócio, recurso humano e composição do preço de venda”, conclui Vera.

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